Por que não choro? por Giulianna Miguel

Vejo postagens desesperançadas

Várias

Que há mais para ser vociferado?

Talvez “que há mais que eu possa escutar?,

que não tem sido escutado”

Uma foi estuprada e morta pelo vizinho

Quase degolada

O outro, baleado

E a universidade intacta

Bem diante do corpo sem nome

“O sexto já”, disse o pai

E por que eu não choro?

Vejo, mas não olho

Não os conhecia

Não me comovo

(Enquanto a PM joga mais óleo nesse fogo)

Por que não choro?

Por que consigo rir e ler?

Por que sigo os prazos do segundo seguinte?

Por que não choro como quando chorei por Carol, por Lara, por Larissa, por Karen, por Natasha, por Bárbara, por Fernanda, por mim, por Joelma, por Ana Carlota, por Jéssica, por Ana Maria, por Imna, por Gabriela, por Josefina, …?

Mas é claro: ‘tudo’ não quer caber num poema.

E ainda haverá os que dirão que é tudo

hipérbole, figura de linguagem, exagero,

que eu nem chorei por cada caso,

que eu os inventei, na verdade.

Aaah, a “Verdade-Paz e Justa”

Ela só me faz ter ódio deles, todos,

e todos aqueles

que eu nem vejo,

nem sei o nome

– nem posso saber!,

porque estão altos demais,

brancos demais,

invisíveis demais,

aos pobres mortais Confusos,

que não percebemos nossos títeres

manipulando a cruz de madeira

e nos enforcando com as cordinhas

nos fazendo rir, dançar, seguir

Por que não choro?

Porque secam minhas lágrimas regularmente

“Insensibilidade ao genocídio cotidiano é o motor da subjetividade neoliberal”

Discutem os trabalhos de conclusão de curso e as resenha entre os muro da universidade

Codificando os raps e a vontade da gente inocente,

que continua sucumbindo depois de milhares de anos ao homem que dominou a terra, a mulher e os animais – será Deus?

Não!, Deus tudo vê e tudo olha. Ele está por nós, no julgamento final ele acertará as contas com cada um

Deus é mulheres negras, povos pretos, empobrecidos, se organizando e organizando o “I Sarau do Juízo Final”:

‘Traga sua arte-arma!’

A Vontade de viver NESSA vida, AGORA

Combaterá a Verdade eterna inventada de que Deus se preocupa com teu dízimo

E que dignifica quem trabalha para o outro que não trabalha, esse que escraviza.

Matar…

Há que se estar vivo.

Morrer:

É coisa da gente de hoje

Metade sobrevivente

Metade sobrevivente cada vez mais endinheirada, e fardados e bilionários que nem se presumem vivos.

Nós estamos morrendo

Nós morremos

– mesmo que tenha coração batendo –

Mas nós morreremos o Estado,

Morreremos o Patriarcado,

Morreremos o Genocídio,

Morreremos esses absurdos de dominação que vemos, mas não olhamos

POR QUE NÃO ENXERGAMOS ESSES ABSURDOS?

A Verdade é financiada

Pelos donos do teu delvalle ao teu samsung,

Da agência espacial à tua aula,

Da tua roupa ao teu gosto,

Da tua informação ao teu amor

– Ao teu amor!

Morreremos eles

que nem vemos,

nem sabemos o nome

– nem podemos saber!,

porque estão altos demais,

brancos demais,

invisíveis demais,

aos pobres mortais Confusos

Mas nós os morreremos!

Morreremos todos eles

Antes de morrermos todos e todas nós

Ou enquanto morre tudo.

IMG_8910
Giu é Negra de pele clara, anarca, sapatão, estudante de Cinema e Audiovisual, mas amante de todas as artes, recentemente interessada em educação e acessibilidade comunicacional. Residindo no nordeste (Iemanjá mandou chamar).

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s