Vivências de um homem negro no curso de Psicologia por Paulo Vítor P. Navasconi

Antes de iniciar com a proposta deste texto, gostaria de sinalizar que tive como ponto de partida as minhas vivências enquanto graduando em Psicologia e agora mestrando em Psicologia, contudo, em momento algum terei como proposito individualizar uma problemática do plano estrutural que perpassa diversos fatores e diversas pessoas.

Pois bem, ainda quando cursava Psicologia por vezes não me identificava na minha condição enquanto sujeito negro frente aos conteúdos ministrados em sala de aula. Constantemente deparava-me com o incômodo visto que questões relacionadas à raça/etnia e gênero eram praticamente inexistentes em discussões e nos debates realizados com os/as docentes e discentes. Todo este tempo permaneci calado, e consequentemente tomando esta indignação como sendo apenas minha. Atualmente não sou mais um aluno da graduação, mas um mestrando em Psicologia, contudo infelizmente os sentimentos de não identificação e de incomodo permanecem. As discussões acerca destas temáticas como raça permaneceram inexistentes, exceto quando eu, não mais em silêncio tentava problematiza-las em sala de aula.

A sensação e a interpretação que realizei em sala era de que alguns avaliavam como não importante ou até mesmo desnecessário para aquele dado momento, já outros tornavam-se sensibilizados/as e interessados/as frente às discussões apresentadas, entretanto, o interesse ficava apenas para aquele momento e dentro da sala de aula. Mas não pude deixar de me questionar intimamente a inúmeras questões, no qual aqui compartilho: Quais tipos de saber os/as educadores/as querem desqualificar no momento em que acenam que os marcadores sociais de raça e gênero “não são importantes” para o dado momento? Quais são as consequências sociais de uma política educacional que se institui a partir da negação e de exclusão de algumas realidades sociais como no caso a realidade social de pessoas negras?

Infelizmente este pequeno relato não restringe apenas as minhas vivências, ou seja, incalculáveis pessoas negras vivenciam esta realidade, claro que de modos e contextos diferentes, entretanto o cerne sempre será o mesmo. Todavia, o silenciamento diante desta problemática também produz efeitos na realidade, e neste contexto aciono o conceito de branquitude e de pacto narcísico para minimamente compreender por que às pessoas não estão se interessando ou pouco se interessam acerca da intersecção educação e relações raciais, ou mais especificamente porque não é entendido como politicamente e cientificamente relevantes.

Segundo Schuman (2014) definir o que é branquitude e quem são os sujeitos que ocupam lugares sociais e subjetivos da branquitude é o nó conceitual que está no bojo dos estudos contemporâneos sobre identidade branca. Para a autora, ser branco e ocupar o lugar simbólico de branquitude não é algo estabelecido por questões apenas genéticas, mas sobretudo por posições e lugares sociais que os sujeitos ocupa. Assim, os brancos obtêm privilégios simbólicos em razão dessa pertença, mesmo que involuntariamente (BENTO, 2002). Ser branco, todavia, passa ser compreendida sob os moldes da branquitude, uma vez que, a branquitude torna-se o padrão universal e suposição dominante do que viria ser “sujeito”, neste sentido, corpos negros não passariam a ser partes constituintes do saber científico.

Haja vista que a sociedade atribui dois lugares frente à negritude: da objetificação ou da subalternidade e com isto, não conseguimos adentrar no campo da ciência, ou seja, há sujeitos que não são exatamente reconhecíveis como sujeitos e há “vidas” que dificilmente são reconhecidas como vida. Esta estratégia possibilita, portanto a manutenção do lugar subalterno e de retirada de humanidade e consequentemente traz a tona da objetificação dos nossos corpos, não somos humanos e sim objetos.

Desta forma quando nos deparamos com cartazes, pichações ou frases “seu lugar não é aqui”, “aqui não é senzala tirem esses pretos daqui”, “lugar de negro não é na universidade é no presídio”, “fora macacos/as”, “negros/as só se for na cozinha do RU, cotas não” e dentre outras tantas, torna-se compreensíveis a existência desses posicionamentos, assim como aqueles que eu e talvez você tenha vivenciado quando sinalizou a importância de se compreender o contexto acadêmico sob diferentes olhares dentre eles com recorte racial, de gênero e classe.

Bento (2002) nos ajuda entender ainda mais realidade, de modo que segundo a autora passa ser compreensível à revolta, o medo e o silêncio, uma vez que a escravidão envolveu apropriação indébita concreta e simbólica, violação institucionalizada de direitos durante quase 400 dos 500 anos que tem o país. Assim, a sociedade empreendeu ações concretas para apagar essa mancha “negra” da história, como fez, por exemplo, Rui Barbosa no qual queimou importantes documentos sobre o período da escravatura. Essa herança silenciada grita na subjetividade contemporânea da população brasileira, em particular dos brancos, beneficiários simbólicos ou concretos dessa realidade. Dito em outras palavras, pactos narcísicos corresponderia a uma espécie de acordo tácito entre os brancos de não se reconhecerem enquanto parte privilegiada pela estrutura e reorganização do racismo, assim sendo, permanecem na tentativa de neutralização de tal identidade sob a zona de conforto simbólico, subjetivo e concreto.

Neste sentido, passa ser “compreensível” o espanto de uma turma quando se depara com a queixa de um/a aluno/a negro/a afirmando que as discussões realizadas naquele espaço não contemplava pessoas negras. Afinal, este “questionamento” atravessa o papel universal e hegemônico do que podemos entender como identidade branca. No entanto, quantos de nós ao realizarmos estes “questionamentos” não tivemos que escutar a seguinte expressão: “foi bom você ter falado isso, o que podemos fazer para ajudar a desconstruir essa realidade?”.

O negro não deseja uma ajuda isolada, um favor em especial, no entanto, muitos brancos se comportam diante da população negra da maneira tradicional do racista brasileiro, isto é, assumindo uma postura paternalista, reforçando a ideia de que o problema racial no Brasil não seria um problema estrutural e institucional, mas sim um problema das pessoas negras, logo caberia a nós o direcionamento e a catequização para a construção de uma luta antirracista.

Todavia, a luta contra o racismo e as desigualdades raciais precisa ser uma bandeira defendida por toda a sociedade e não apenas pela população negra, articulada ou não por meio de movimentos sociais. Essa é uma questão que deve envolver toda a sociedade, não apenas a população negra. Os brancos não podem se omitir achando que esse é um problema somente nosso, porque não é.

E mesmo diante das inúmeras dificuldades e das tentativas de silenciamento continuaremos existindo e resistindo, pois atentar-se à questão racial é promover cuidados em saúde e educação, considerando a singularidade de cada pessoa, bem como, respeitando os direitos humanos e consequentemente, levando em conta o papel do racismo na história de um país que fora estruturado sob e pelo processo de escravidão, e que no atual momento político-social, carece da visibilidade e promoção à saúde e educação da população negra.

REFERÊNCIAS
BENTO, Maria Aparecida Silva. “Branqueamento e branquitude no Brasil”. IN: CARONE, Iray; BENTO, Maria Aparecida Silva; PIZA, Edith Pompeu. Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis: Vozes. p. 25-57, 2002.
SCHUCMAN, L. Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. Tese (Doutorado em Psicologia), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

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Paulo Vítor é mestrando em Psicologia pela UEM/PR. Membro do Deverso – Grupo de pesquisa em sexualidade, saúde e política. Pesquisador do NEIAB/UEM e membro do Coletivo Negro Yalodê-Badá de Maringá/PR.

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