A Potência do Devir-Mulher-Negra-Periférica por Adriana Rolim

Num fim de tarde, entre o outono e o inverno, com resquícios de safra da laranja, uma poeta se esbarra com um professor em pleno edifício educacional. Ela logo se encanta com os crespos cachos que saltam do cocuruco dele e emenda ajeitando a alça vermelha de seu sutiã. Ela finge preencher diário escolar e o observa enquanto jorra tinta do afeto em seu papel amassado: Gosto de transição como lei da vida, de estado de ação de graças, de prazer ameno e espiritual, de correr o risco, de mudar o tempero, de transportar o céu para o chão, de sentir a luz sair pela fontanela, de pessoas se tornando boas e cantando loas, de sinergia dos pés, de vento trazendo folhas de árvore, de ócio criativo, de chegar ao precipício e viajar em ti, de chá de trombeta, de dormir nua e de brincos, de corpos em movimento, de labirinto de sensações, de castelos construídos no ar, de boca insana que insulta e difama, de alargar minhas asas, de quando dizem “bonita a alça vermelha do seu sutiã”. Seu corpo escrevera sobre desejos e gozos. Ele logo nota o ritual de sedução e se entrega. Ele a pergunta: Esse teu brilho vem de onde? Ela responde em estado de tesão: Vem da reza e da flor, pois eu gosto de ventar o meu amor. Sou de ginga e de saia. Sou de força e de mata. Afetado ele ri com os olhos, vibra com as bochechas, acena com as narinas e retruca: Já sou teu. Trocam telefones, conversas, eventos e dançam para a lua no primeiro encontro. Ele conduz seu olhar para a saia esvoaçante dela. Ela segura os dedos grossos dele e vai tentando não fazer rosto de interjeição aos olhos alheios da terra, mas cai de boca no brinquedo de praça, sobe-e-desce, gangorra e guarda todo o yacult de suas poesias madrugais. O instinto se completa ao som de uivos silenciosos… Ela pensa ser natureza, cria cachoeira no meio de sua vulva e ele mergulha como uma rocha pela límpida água, nadando braço pós-braço, sentindo a pele e o suor até a queda encontrar e a cascata brotar. Rabo de fora em festa. Gênio brabo que logo amolece ficando por cima. Mais águas de matrimônio, riachos doces ou mares salgados. Cadeiras da nega sambam. Olhos do nerd não se controlam. Manzorras que puxam, beiço na nuca, movimento febril, mastro abrigo acampa o néctar do gorfo. Prazer de duas vias, de quatro vezes. Longa pausa e inspiração de encostar barriga nas costelas. Seguraram-se no encontro de um olhar e casaram-se. Foram mitologias africanas, gregas e romanas. Foram tambores, gaitas e violas. Foram coxias, palcos e cortinas. Cresceu-lhe a cama, a aliança e o ventre. Nasceu um corpo e um abrigo. Ela suspirou sua cria-poesia mais impalavrável de todos os tempos. Que minha boca alimente para sua barriga encher. Que meus pulmões respirem para sua vida viver. Que minhas mãos acariciem para o seu envolver. Que meus sorrisos alegrem o seu enaltecer. Que meus seios continuem como fonte de tua saúde. Que minha voz continue como motivo de teu ouriçar. E assim fecundou, gerou e nasceu o Jardim das Jubas Contentes. Ela tornou-se uma nova mulher… Antes era descompasso, desequilíbrio, implusão e angústia. Passou a ser suavidade, reflexão, introspecção e contemplação. E nesse rocambole vermelho descobriu o vigor e a autoridade da potência do devir-mulher-mãe.

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Sou atriz, arteterapeuta e poeta de vez em quando. Tenho um livro de poesias publicado e milito em prol do empoderamento da mulher negra através de uma performance.

Seguem minhas páginas abaixo.

Arteterapeuta Adriana Rolin: https://www.facebook.com/Arteterapeuta-Adriana-Rolin-272227529580596/?fref=ts

Performance Ei,Mulher: https://www.facebook.com/EiMulheeer/?fref=ts

Livro Cria Jubal: https://www.facebook.com/livrocriajubal/?fref=ts

 

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